Crítica | Juçara Marçal & Thais Nicodemo: “Dessemelhantes”

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Parceira de longa data de Kiko Dinucci, com quem deu vida aos essenciais Padê (2008), Encarnado (2014) e Delta Estácio Blues (2021), Juçara Marçal parece ter encontrado em Thais Nicodemo uma colaboradora à altura. Juntas em Dessemelhantes (2026, YB Music), as duas musicistas se aventuram na construção de um material que fragmenta o piano tradicional e transforma a voz em uma importante ferramenta de trabalho.

Um Encontro Musical

Nascido de um encontro inicial entre as duas artistas em cima do palco, há oito anos, Dessemelhantes é um registro que equilibra tensão e momentos de inesperada suavidade de maneira única. Enquanto Nicodemo assume o piano preparado, espalhando pedaços de papéis, latinhas, pregadores e até placas de metal pelas cordas do instrumento, o vocal de Marçal avança sobre o ouvinte em uma interpretação quase opressiva.

Releituras Impactantes

O repertório talvez não seja dos mais inovadores para quem há tempos acompanha o trabalho da cantora fluminense e seus camaradas, mas a forma como Marçal se apropria de faixas há muito conhecidas seduz e convence sem dificuldades. É o caso de Cavaquinho, nostálgica criação de Rodrigo Campos revelada em São Mateus não é um lugar assim tão longe (2009), mas que ganha novas tonalidades em Dessemelhantes.

Expansão e Impacto

Em determinados casos, essa usurpação de Marçal e Nicodemo é tão impactante que qualquer lembrança sobre a versão original desaparece por completo. Exemplo disso acontece em Eu Lacrei. Apresentada por Negro Leo em Desejo de Lacrar (2020), a canção se expande na interpretação cênica e no uso das vozes carregadas de efeitos que contrastam com a limpidez dos pianos que encolhem e crescem a todo instante.

Experimentação e Minimalismo

É como um ensaio para o que se revela de maneira ainda mais exploratória em Merecedores, composição que abraça o caos e lida com a gradativa sobreposição dos ruídos percussivos. Entretanto, nem sempre a dupla depende dos excessos para causar impacto. Em Maria, por exemplo, é o minimalismo e a profunda entrega de Marçal que elevam a faixa originalmente lançada por Maria Beraldo no álbum Cavala (2018).

Possibilidades Musicais

Entre releituras e músicas ainda inéditas, como a própria música-título, uma parceria entre Marçal e Thiago França, prevalece em Dessemelhantes o desejo das duas artistas em jogar com as possibilidades. Ainda que faixas como É Mesmo Assim e Isso É o Que Se Diz, Irmão partilhem de estruturas similares a outros projetos envolvendo Marçal, como Metá Metá e Sambas do Absurdo, há sempre um fino componente de torção que constrange o óbvio, extirpa possíveis semelhanças e conduz o trabalho da dupla para diferentes direções.

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Fonte: https://musicainstantanea.com.br

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